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Archive for the ‘Pequenos Contos Para Refletir’ Category

“Existe uma velha história:

Deus criou o mundo. E então, ele costumava viver na terra. Você já pode imaginar… ele tinha tantos problemas, todos vinham reclamar, todos batiam à sua porta nas horas vagas. À noite pessoas vinham e diziam: “Isso está errado, hoje nós precisávamos de chuva e está tão quente”. E alguém vinha logo depois e dizia: “Não traga chuvas por enquanto — eu estou fazendo algo e a chuva estragaria tudo”.

E Deus estava a ponto de ficar louco… “O que fazer? Tantas pessoas, tantos desejos, e todos esperando e todos necessitando serem atendidos, e eram desejos tão contraditórios! O fazendeiro queria chuva e o ceramista não queria chuva alguma pois ele fazia vasos e a chuva podia destruí-los; ele necessitava de sol quente por alguns dias…” E assim em diante.

Então, Deus chamou os seus conselheiros e perguntou: “O que fazer? Eles irão me enlouquecer, e eu não posso satisfazer a todos. Ou eles irão me matar um dia destes! Eu gostaria de encontrar um lugar para me esconder”.

E os conselheiros sugeriram várias coisas. Um deles disse: isso não é problema, vá para o Everest. Ele é o pico mais elevado dos Himalaias, ninguém irá alcançá-lo”.

Deus disse: “Você nem imagina! Eles o alcançariam em poucos segundos”, para Deus isso seria apenas uns poucos segundos: “Edmund Hillary iria alcançá-lo com Tensing e então os problemas começariam. E uma vez que soubessem, então eles começariam a vir em helicópteros e ônibus, e tudo seria… Não, isso eu não vou fazer. Isso resolveria as coisas só por alguns minutos”.

Lembrem-se de que o tempo para Deus tem uma dimensão diferente. Na Índia diz-se que para Deus milhões de anos é um dia, alguns segundos então…

Daí alguém mais sugeriu: “E por que não ir para a lua?”

E Deus respondeu: “Lá também não é longe o bastante; mais uns poucos segundos e alguém iria alcançá-la”.

E os conselheiros sugeriram estrelas distantes, mas Deus falou: “Isto não resolveria o problema. Seria apenas uma espécie de adiamento. Eu quero uma solução permanente”.

Então, um velho ajudante de Deus aproximou-se dele e sussurrou algo em seu ouvido. E Deus disse: “Você está certo. Vou fazer isso mesmo!”.

O velho ajudante havia dito: “Só existe um lugar onde o homem nunca irá alcançar — esconda-se nele mesmo”. E esse é o lugar onde Deus está escondido desde então: no interior do próprio homem. E esse seria o último lugar no qual o homem pensaria encontrá-lo.”

Osho, em “A Visão Tântrica: Discursos Sobre as Canções de Saraha”

Texto na íntegra em: http://bit.ly/WEYzpV

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Era uma vez uma montanha onde muitos deuses viviam.
Os deuses eram muito felizes. Eles pareciam não ter nada o que fazer. Passavam uma grande parte do tempo somente sentados ou caminhando. Havia um lindo riacho na montanha – a água era límpida e clara. Parecia que cada vez que alguém bebia daquela água se sentia leve e livre, sem desejo e sem raiva. Ao longo do riacho havia muitas cerejeiras que pareciam florir por todo o ano e os botões de cerejeira caíam na correnteza e se iam junto com a água. Alguns deles viajavam bastante longe, até a cidade que ficava no sopé da montanha.
Existia um homem nessa cidade que sofria tanto que queria morrer.
Um dia, ele viu uma pétala de flor de cerejeira na correnteza e decidiu seguir seu caminho até a fonte. Ele disse a si mesmo que iria encontrar a fonte, mesmo que levasse anos. Depois de muitos anos de caminhada, ele chegou à montanha dos deuses e eles o convidaram a se aproximar, sentar-se junto da correnteza e tomar um pouco da água com as mãos. Depois de beber a água, o homem sentiu que não tinha mais desejo, nem mesmo desejo de cura e transformação.
Ele se sentiu muito cansado, não queria mais nada – queria desistir de tudo.
Ele se deitou à margem do riacho e caiu em sono profundo.
Durante o sono, a água continuou a trabalhar em seu corpo e em sua mente, transformando e purificando.
Como ele se permitiu dormir profundamente, o trabalho de cura e transformação foi bastante fácil para ele.
Ele não fez nada, apenas se deitou e permitiu que a água que havia bebido trabalhasse nele.
Alguns dos deuses tomaram conta dele – pegaram dois seixinhos que pareciam olhos de gato, foram ate ele enquanto dormia e trocaram seus olhos pelos seixos. Agora ele tinha novos olhos.
O homem dormira por muito tempo.
Depois de uma semana, ele acordou. Ficou em pé, viu o céu, as árvores como nunca tinha visto antes. Quando ele chegou, o céu e as árvores já estavam ali, mas ele parecia não ter visto do mesmo jeito, pois agora tinha novos olhos.
De fato, tudo nele havia mudado. Tinha agora novos ossos, novo coração, novos intestinos – estava completamente transformado.
Sentia-se agora como se fosse um dos deuses e não queria mais ir embora. Ele disse: “Eu não quero voltar pra casa, para aquele lugar, eu quero ficar aqui com vocês”.
Mas um dos deuses replicou: “Você tem que voltar pra casa e ajudar o seu povo”.
E o homem disse: “Se voltar pra casa, ficarei sozinho. Não conseguirei lidar com isso lá embaixo. É tão difícil! Eu não quero voltar nunca mais para aquele lugar”.
Um dos deuses, porém disse-lhe: “Olhe, quando você voltar pra casa, não verá mais as coisas do mesmo jeito que via no passado. Antes, você enxergava o céu e as árvores, mas agora, depois de uma semana, você já vê realmente o céu e as árvores. Não tenha medo de voltar pra casa. Com seus novos olhos, novos pulmões e novos ossos você verá as coisas de maneira diferente, não precisará sofrer.
E sabe de uma coisa? Mesmo quando você voltar você continuará a nos ver. Nós não estamos somente aqui, estaremos lá embaixo com você”.
O homem então entendeu. Disse adeus aos deuses, à montanha e ao riacho e começou a jornada de volta.
Mas desta vez, não levou vários anos, como para subir. Levou apenas uma manhã. Os deuses estavam certos.
Quando chegou em casa com seu novo ser, ele não viu a situação de maneira tão ruim e desesperadora como antes.
Ele agora era capaz de olhar com compaixão e clareza, seu coração estava aberto e era capaz de redescobrir os seres humanos de uma forma nova. Ele sentiu a compaixão crescendo nele por que viu que muitos seres humanos estavam presos a idéias, ideologias, religião e cultura e que, por isso, sua verdadeira natureza humana não podia ser vista. Mas agora, depois que se tornou uma pessoa livre, pôde descobrir seres humanos mesmo dentro de verdadeiros cadáveres.
Por isso, quando ele os olhava e os ouvia, não se sentia mais irritado ou frustrado. Com seu sorriso, podia ajudá-los a mudar sua situação.
Ele descobriu que não estava sozinho.
Todos os deuses com os quais se encontrara na montanha estavam bem ali para ajudá-lo e para lhe fazer companhia.
Essa história é feliz por que o homem foi capaz de passar sete dias na montanha permitindo a si mesmo ser objeto de transformação e cura através da água da compaixão.
Ele não fez absolutamente nada durante o tempo em que ficou na montanha. Não praticou nada, praticou a não prática. Apenas permitiu a si mesmo ser abraçado pela montanha, pelo riacho, pelas árvores, para se renovar.
Assim, ele conseguiu novos olhos, novos ouvidos, novos ossos e novo coração.
Se ele tivesse ido à montanha somente para procurar idéias e respostas para levar pra casa, não teria sido capaz de retornar com compaixão e sem medo.
Ele não foi à montanha em busca de teorias, ideologias, táticas ou estratégias.
Ele foi lá para se renovar e deixou que essa renovação ocorresse.
Quando voltou para casa, não levou ensinamentos, práticas ou respostas – apenas levou a si mesmo, totalmente renovado.
(Retirado do Capítulo V do livro de Thich Nhat Hanh – “Peace Begins Here: Palestinians and Israelis Listening to Each Other”)

 

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Temos que estar totalmente despertos para apreciar o chá como deve ser. Temos que estar no momento presente. Apenas com a consciência no presente, as nossas mãos podem sentir o agradável calor da chávena. Apenas no presente podemos apreciar o aroma, sentir a doçura e saborear a delicadeza. Se estamos a lembrar o passado ou preocupados com o futuro, perdemos por completo a experiência de apreciar a chávena de chá. Olharemos para a chávena e o chá terá já terminado.
A vida é assim. Se não estamos totalmente no presente, quando olharmos à nossa volta esta terá desaparecido.
Quando pararmos de pensar no que já aconteceu, quando pararmos de nos preocupar com o que poderá nunca vir a acontecer, então estaremos no momento presente. Só então começaremos a experimentar a alegria de viver…

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Contemple esses sábios ensinamentos do livro sagrado do Yoga, A Bhagavad Gita:

Cap. VI estrofe 16: “A união mística com a Divindade não é atingível, porém, para aquele que é comilão, nem para quem jejua demasiadamente, nem para o dorminhoco, nem para quem se debilita por demasiadas vigílias. Quem quer ser yogi, há de evitar os extremos e seguir o dourado caminho do meio.”

Na estrofe 17: “A ciência yogi, que destrói o sofrimento, é realizável para os que observam moderação e temperança em comida e recreio, em ação e descanso; para que aqueles que, fugindo do mal do excesso em ação, não caem no mal oposto do excesso em repressão.”

Antes de alcançar o dourado caminho do meio, geralmente, o ser humano percorre os caminhos dos extremos, e fica perdido e reprimido. Ora vive apenas os prazeres da vida material, se esquecendo da vida espiritual. Ora se reprime, evitando as alegrias saudáveis da vida, pensando que seguir um caminho espiritual é ser sério e rígido.

Yoga gosta de ensinar através de contos, pois é mais fácil assimilar os ensinamentos.

Reflita, então sobre esse conto:

“Era uma vez um jovem que visitou um grande sábio para perguntar-lhe como é que deveria viver para adquirir a sabedoria. O ancião, ao invés de responder, propôs um desafio:

- Vou encher uma colher de azeite e você vai percorrer todos os cantos deste lugar, mas não deixe derramar uma gota sequer. Após ter concordado, o jovem saiu com a colher na mão andando com passos pequenos, olhando fixamente para ela e segurando-a com muita firmeza. Ao voltar, orgulhoso por ter conseguido cumprir a tarefa, mostrou a colher ao ancião, que perguntou:

- Você viu as belíssimas árvores que havia no caminho? Sentiu os aromas das flores maravilhosas do jardim? Escutou o canto dos pássaros:
Sem entender muito o porquê disso tudo, o jovem respondeu que não, e o ancião disse:

- Assim você nunca encontrará sabedoria na vida; vivendo apenas para cumprir suas obrigações sem usufruir das maravilhas do mundo. Assim nunca será sábio.
Em seguida, pediu para o jovem repetir a tarefa, mas desta vez observando tudo pelo caminho. E lá foi o rapaz com a colher na mão, olhando e se encantando com tudo. Esqueceu da colher e passou a observar as árvores, cheirar as flores e ouvir os pássaros. Ao voltar, o ancião perguntou se ele viu tudo e o jovem extasiado disse que sim. O velho sábio pediu para ver a colher e o jovem percebeu que tinha derramado todo o conteúdo pelo caminho.
E o ancião disse:

- Assim você nunca encontrará sabedoria na vida, vivendo para as alegrias do mundo sem cumprir suas obrigações. Assim nunca será sábio.
Para alcançar a sabedoria, terá que cumprir suas obrigações sem perder a alegria de viver. Somente assim conhecerá a verdadeira sabedoria.”

Contemple como tem sido sua atitude perante à vida:

Você é perfeccionista?

Está sempre se julgando, se cobrando e também julgando e criticando os outros?

Você está sempre ocupado, preocupado com o trabalho, sem achar um tempo para seu lazer?

Vive apressado, ansioso, com muitas tarefas?

Ou você priorizou seu tempo para dar uma caminhada, para praticar hatha yoga, para relaxar, para praticar um exercício físico saudável?

Quando você caminha na rua, você percebe a beleza das árvores, a arquitetura bonita das casas e edifícios? Ou está sempre voltado para si mesmo, egoisticamente pensando apenas em seus problemas?

Você leva suas preocupações do trabalho para casa, ou consegue separar os vários momentos de sua vida?

Sabe equilibrar seus deveres e lazer?

Vive apenas voltado para a vida mundana, para atividades fúteis, esquecendo de suas obrigações?

Pensa apenas nos prazeres dos sentidos e deixa que eles o dominem com vícios prejudiciais?

Ou tem o autodomínio de escolher os prazeres benéficos, vivendo com moderação sem vícios?

Praticar a Contemplação (Dharana, em sânscrito) é uma maneira de se autoconhecer, de perceber seus erros e corrigi-los, sem se culpar. É uma maneira também de reconhecer suas qualidades e se valorizar.

É muito importante entender o paradoxo do Yoga e vivenciá-lo em sua vida:

Ser responsável e ter a leveza de espírito.
Ser firme e flexível.
Ter disciplina e determinação, com alegria e entusiasmo.
Ser forte como um aço e ao mesmo tempo suave como a manteiga.
Equilibrar a vida material e a vida espiritual.

Procure aplicar esses ensinamentos em sua vida e alcance o dourado caminho do meio. Fique em paz! Namastê! Deus em mim saúda Deus em você!

por Emilce Shrividya Starling

http://www2.uol.com.br/vyaestelar/caminho_do_meio.htm

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Cinco discípulos viajaram por muitos dias para receberem os ensinamentos de um Mestre a respeito de vida.

- A Vida é uma peneira cheia de água.

Ouviram o Mestre mansamente dizer já no seu primeiro encontro. Muito confusos e até decepcionados com esse ensinamento, arriscaram uma pergunta:

- E o que deveremos fazer para vivermos intensamente e sem restrições?

- Ora, é muito simples: encham as suas peneiras de água, respondeu-lhes o Mestre em tom categórico. Dois deles, visivelmente insatisfeitos com o Mestre, decidiram partir imediatamente, lamentando terem vindo de tão longe para ouvirem tamanha baboseira.

Outros dois também regressaram logo, convictos de que havia um significado oculto nas palavras do Mestre, que eles deveriam descobrir através de um pormenorizado estudo dos Textos Sagrados.

Apenas um deles resolveu por em prática o ensinamento do Mestre.

Apanhou, pois, uma peneira e foi para a beira do rio, onde, pacientemente, hora após hora, dia após dia, tentou de todas as maneiras enchê-la de água, como o mestre havia recomendado. Reconhecendo o esforço e a humildade do discípulo, o Mestre aproximou-se dele e tomando a peneira da sua mão, disse:

- Apanhando um pouquinho de água de cada vez e despejando dentro da peneira, você nunca conseguirá enchê-la de água.

E num gesto rápido, lançou a peneira na correnteza do rio. Ao ver sua peneira encher-se de água sem parar, num caudaloso, regular, intenso, infinito e contínuo movimento, constatou que para viver a vida intensamente é preciso que se entregue à ela, por inteiro.

É necessário render-se ao aqui e agora, sem os conflitos de certo e errado, bom e mau, ou seja lá do que for. Inútil tentar fugir ou buscar significados ocultos para os fatos da vida. Só mergulhando nela poderemos saber o que a vida é e desfrutá-la integralmente, sem julgamentos de qualquer espécie. Por desatenção ao presente, o que se percebe da vida e consequentemente dela recebemos são apenas migalhas, gotículas insignificantes que passam sem deixar seqüelas, lances esparsos e não raro confusos do que está ocorrendo dentro e fora de nós.

Enquanto isso, a vida não pára de viver, conosco ausentes ou presentes. Daí brota a incômoda sensação de que algo está sempre nos faltando, de que a nossa peneira continua vazia, a despeito de todos os nossos humildes, resignados e constantes esforços.

 

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EM BUSCA DO BOI

Conta uma história da tradição budista que, um monge entrou em um vilarejo montado em um boi, e os habitantes da vila lhe perguntaram onde estava indo.

Ele então respondeu que estava em busca de um boi.

As pessoas se entreolharam, intrigadas, e então começaram a rir. O monge se foi. No dia seguinte, de novo montando um boi, o monge voltou ao vilarejo. E de novo as pessoas lhe perguntaram o que buscava.

“Procuro um boi”, foi novamente a resposta. Outra vez o monge se foi, em meio ao riso de todos.

No terceiro dia o fato se repetiu: “o que busca?” e o monge, montado no boi, disse ser um boi o que buscava. Só que a piada já perdera a sua graça e as pessoas protestaram, dizendo: “olhe aqui, você é um monge, supostamente uma pessoa santa, sábia, e mesmo assim você vem aqui à procura de um boi quando, o tempo todo, é sobre um boi que você esta sentado.” ao que replicou o monge: “também assim é a sua procura de Deus.” e assim é conosco. Tantas e tantas vezes saímos em busca de algo que estava conosco o tempo todo, sem que nos déssemos conta. Achamos que a nossa realização está em outro trabalho, outra profissão, outra família, outros amigos… e chegamos por vezes a partir em uma busca inútil quando, se olhássemos com um pouco mais de atenção – talvez com um pouco mais de boa vontade – para aquilo que já temos, descobriríamos que o ” boi” que tanto procurávamos estava nos carregando todo o tempo.

É preciso olhar para frente, sim, traçar metas, segui-las. Mas sem perder a noção do potencial de realização e felicidade que esta bem aqui, na nossa realidade presente.

Se você aprender a olhar para sua própria vida, pode descobrir que sua esposa, ou seu marido, ainda conserva muito daquilo que fez você se apaixonar há 10, 20, 50 anos.

Que sua profissão continua tendo muito em comum com suas idéias de vida – apesar de seu desgaste, de seu cansaço.

Que seu trabalho ainda guarda chances e as perspectivas que tanto prometiam. Estão apenas um tanto encobertas pela poeira do tempo que passou, enquanto você esteve ocupado demais para aproveitá-las.

A felicidade precisa ser perseguida. Mas muitas, muitas vezes, sofremos e choramos sentados sobre ela.

 

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OS TRÊS REIS

Gaspar era rei de Markash, o país de mar azul e praias brancas. Nele moravam homens e mulheres de pele clara, cabelos negros e olhos castanhos. Aos seus portos chegavam navios de todo o mundo que vinham para vender suas mercadorias exóticas. O comércio acontecia em todos os lugares, nos mercados das grandes praças e nas pequenas lojas de uma porta só, em vielas estreitas. Gaspar, da torre do seu palácio, contemplava tudo. Como rei ele deveria sentir-se feliz: todos lhe eram agradecidos e todos o amavam. Mas, a despeito de tudo isso, havia no seu coração uma tristeza incurável, nostalgia que mais doía quando o sol se punha sobre o mar incendiando as águas.
Por mais que se esforçasse o rei não conseguia sorrir. Gaspar convocou então os seus sábios e expôs-lhes o seu sofrimento. Os sábios lhe disseram que o remédio para a tristeza é o conhecimento. “A ciência é uma fonte de alegria“, eles lhe disseram. O rei mandou então vir professores e cientistas de todo o mundo, importou livros, estabeleceu bibliotecas, montou laboratórios, construiu observatórios astronômicos. Por anos se dedicou à aprendizagem dos conhecimentos da ciência. Agora estava velho. Sabia tudo o que havia para ser sabido sobre o mundo. Mas a ciência não lhe trouxe alegria. Ele continuava sem saber sorrir.
Era madrugada. A luz do sol já iluminava o horizonte. O rei já estava desperto. Na varanda do seu palácio ele contemplava os céus estrelados. Foi então que, olhando para o oriente, ele viu uma nova estrela, estrela que não se encontrava nos mapas dos céus que conhecia. Era uma estrela diferente porque, ao contemplá-la, ele ouvia uma música de indescritível beleza que o fazia feliz. E ele sorriu pela primeira vez. Deslumbrado, mandou vir os sábios que ainda dormiam, e mostrou-lhe a estrela. Mas os sábios, olhando na direção que o rei indicara, nem viram estrela e nem ouviram a música que ele dizia ouvir. Saíram, então, tristemente, convencidos de que o rei estava realmente velho. Os anos de senectude haviam chegado. Gaspar, indiferente à incredulidade dos sábios, ordenou que se preparasse um navio para uma grande viagem, na direção da estrela.
Balt-hazar era rei da Núbia, país montanhoso onde moravam homens e mulheres de pele negra e brilhante. As montanhas da Núbia eram cobertas de vegetação luxuriante, árvores gigantescas, frutas as mais variadas, onde viviam pássaros de todos os tipos. Por todos os lugares se viam riachos de água limpa, com remansos e cachoeiras. Era um país belo e fértil. Balt-hazar, da janela do seu palácio contemplava as montanhas e florestas que se perdiam de vista e pensava: “O Paraíso deve ter sido aqui…“
Entretanto, e a despeito da beleza e da fertilidade da terra, o rei não era feliz. Havia uma tristeza no seu coração, tristeza que ficava mais forte quando os pássaros cantavam seus cantos de final de tarde. O canto deles era belo e triste: o coração do rei era belo e triste…
O rei convocou os sacerdotes, videntes e profetas e falou-lhes sobre a sua tristeza. “De que me vale a beleza do meu país se o meu coração está triste?“, ele perguntou. Os homens santos lhe disseram que a tristeza era sinal de que sua alma estava distante de Deus. “Deus é uma fonte de alegria“, eles lhe disseram. Balt-hazar, então, mandou vir de terras longínquas, místicos e teólogos que lhe ensinassem os caminhos para Deus. Contratou também arquitetos e artistas para construir novos templos. E comprou os livros sagrados de todas as tradições religiosas do mundo. Por anos a fio ele se dedicou às coisas sagradas: leu, meditou, orou… Por fim, chegaram os anos da velhice. Balt-hazar conhecia tudo o que os homens sabem sobre os caminhos que levam a Deus. Mas o seu coração continuava triste, mais triste ainda quando os pássaros cantavam ao entardecer…
Já era madrugada. Balt-hazar, como de costume, levantou-se para as orações. Ele orava olhando para os céus, morada dos deuses. Foi então que, olhando para o horizonte, no lugar do sol nascente, ele viu uma estrela que nunca havia visto. Ao redor dela havia um arco-íris. Mas o estranho é que, ao contemplá-la, ele ouvia uma música de enorme beleza, semelhante à beleza do canto dos pássaros ao entardecer. Só que, ao ouvi-la, seu coração não ficava triste. Ao contrário; era inundado por uma alegria que nunca experimentara.
O rei mandou chamar os sacerdotes, místicos e profetas. “Vejam aquela estrela“, disse ele apontando para o horizonte. “E ouçam a música que sai dela!“ Os homens de Deus olharam na direção indicada mas nem viram estrela e nem ouviram música. Deixaram então o rei embriagado de alegria e comentaram, baixinho, entre si: “Nosso rei enlouqueceu. Isso quer dizer que o fim da sua vida está chegando…“ Balt-hazar, entretanto, mandou preparar cavalos para uma longa viagem, na direção da estrela.
Mélek-hor era rei de Lagash, o país dos desertos e das areias sem fim. Lá viviam mulheres de olhos amendoados e homens rudes de barba espessa. A sua alegria eram os oásis que pontilhavam as areias com o verde das palmeiras e o frescor das fontes. Foi num desses oásis que Mélek-hor construiu o seu palácio com enormes blocos de pedra branca na forma de uma pirâmide. Pirâmides, como se sabe, são figuras mágicas que garantem a imortalidade.
A aridez e solidão da vida do deserto não o incomodavam. Na verdade, ele as considerava desafios para o corpo e para a alma. Mas havia uma coisa que o fazia sofrer: uma melancolia indefinível que sentia ao contemplar os horizontes ondulados de areia que o sol poente pintava de vermelho.
O rei convidou seus amigos para um jantar e lhes falou sobre a sua melancolia. E eles lhe disseram: “É compreensível. Nosso país é muito árido. O que lhe falta, ó rei, são os prazeres da vida. Os prazeres o farão sorrir.“ Mélek-hor então, importou prazeres de todas as partes do mundo: vinhos, frutas, iguarias, músicos, artistas, mulheres lindas… Por anos ele se dedicou aos prazeres que há. Nisso ninguém o excedeu. Mas os prazeres não lhe trouxeram alegria. E ele, já velho, rezava em silêncio: “Não quero prazeres; quero alegria, quero alegria…“
A luz da madrugada anunciava que a noite chegava ao fim. O rei, do alto da sua pirâmide, tomava uma taça de vinho. Era hábito seu contemplar o sol nascente: isso sempre lhe dera prazer. Mas o prazer da beleza sempre lhe vinha misturado com tristeza. Mas, desta vez, não sentiu tristeza. Espantou-se ao perceber que estava alegre. E a alegria lhe vinha de uma nova estrela nunca vista que brilhava no céu. E – curioso! – ao contemplar a estrela ele ouvia uma melodia que o enchia de felicidade. Mélek-hor sorriu então pela primeira vez. Deslumbrado, mandou vir seus amigos. Apontou-lhes a estrela, falou-lhes sobre a música. Mas eles, olhando para os céus, não viram a estrela e nem ouviram a música. Amigos que eram, disseram ao rei: “Querido Mélek-hor, nosso rei amado: não há estrela, não há música. Tua mente já não percebe as coisas da terra. Ela navega nas águas do grande rio, na direção da terceira margem… Choramos porque sabemos que estás de partida…“ E tristemente se retiraram, entoando um silencioso requiem. Mas o rei, indiferente às palavras dos amigos, mandou preparar os camelos para uma viagem na direção da estrela…
Gaspar, navegava do norte, em seu navio, velas enfunadas por uma brisa fresca e constante. Balt-hazar, vinha do sul, em seu cavalo, por caminhos que cortavam matas verdejantes. Mélek-hor, vinha do oeste, em seu camelo, atravessando desertos com areias escaldantes.
Três reis, tão diferentes, tão distantes, nada sabendo um sobre os outros, numa viagem absurda, com que jamais haviam sonhado, na direção de uma estrela que só eles viam, e de uma música que só eles ouviam. Sim, com certeza haviam enlouquecido…
As brisas mansas que enfunavam as velas do navio de Gaspar repentinamente se transformaram numa horrenda tempestade com ventos furiosos. Seu navio, casca de noz, foi arremessado contra um rochedo e se despedaçou. Mas o mar se apiedou de Gaspar e um golfinho o levou, desacordado, para uma praia. Recuperado do medo, agora só lhe restava continuar a pé a sua jornada. Sem alternativas, o navegador se transformou em andarilho.
Caminhou muito. E aconteceu que, depois de muito caminhar, ele chegou a uma encruzilhada. Era aí que se cruzavam os quatro caminhos do mundo: o caminho que vinha do norte, o caminho que vinha do sul, o caminho que vinha do oeste e um quarto caminho… Olhando na direção do quarto caminho podia-se ver, no horizonte, a estrela que brilhava…
Havia ali, no meio da encruzilhada, uma estalagem chamada “Os quatro caminhos do mundo“. Foi nela que os três reis se encontraram. À noite assentaram-se à volta de uma mesa para comer: pão, queijo, frutas secas, vinho. E começaram a falar. A contar suas estórias. À medida que cada um deles falava os outros se enchiam de espanto. Que absurda coincidência! Como era isso possível? Que sendo três desconhecidos, vindos de três cantos do mundo, as suas estórias fossem a mesma estória. Eram iguais. Todos haviam sofrido a mesma nostalgia. Todos haviam visto a estrela que ninguém mais vira. Todos haviam ouvido a melodia que ninguém mais ouvira. Descobriram, então, que eram companheiros. Dali para frente viajariam juntos.
E assim foi. Por vários dias caminharam… Aconteceu então que, noite já chegada, chegaram a um minúsculo vilarejo. “Que vilarejo será esse?“, perguntaram. Gravado numa pedra estava o seu nome: “Beth-léhem“ “Estranho“, disse o erudito Gaspar: “Aprendi tudo o que há para ser aprendido sobre reinos, províncias, cidades e vilas. Mas nunca vi esse nome em qualquer um dos livros que li“. Mélek-hor acendeu sua lâmpada de azeite e iluminou, com sua luz bruxoleante, o mapa que abrira sobre o chão. “Aqui está ela“, ele disse marcando com o seu dedo um lugar no mapa. “Beth-léhem. Fica precisamente na divisa entre dois grandes reinos. À esquerda está o Reino da Fantasia. À direita está o Reino da Realidade. “Já li sobre esses dois reinos nos livros sagrados“, disse Balt-hazar. São reinos perigosos. Aqueles que vivem no Reino da Fantasia ficam loucos. Aqueles que vivem no Reino da Realidade ficam loucos também, loucos de outra espécie. Somente se salvam da loucura aqueles que vivem na fronteira entre os dois reinos. Esses ficam sábios e se tornam artistas. Pois Beth-léhem está precisamente na divisa entre o Reino da Fantasia e o Reino da Realidade…“
No vilarejo todos dormiam. O ar estava perfumado com flores de jasmim e magnólia. E havia um brilho no ar – milhares, milhões de vaga-lumes pousados nas árvores. Ovelhas baliam ao longe, enquanto o seu pastor tocava uma flauta… Era uma noite de paz. A estrela iluminava uma gruta. Os reis se aproximaram. Na gruta havia vacas, cavalos, burros, ovelhas. Era uma estrebaria. Mas, convivendo com os animais, uma pequena família: um jovem e uma jovem que amamentava um nenezinho recém-nascido. Era só isso. Nada mais.
Perceberam, então, que haviam se enganado: não era a estrela que iluminava a cena. Era o nenezinho que iluminava a estrela. E olhando bem para ela puderam ver, nela refletido como num espelho, o rosto da criancinha. Aí entenderam, deixaram de ser reis e se transformaram em sábios: “O universo é um berço onde uma criança dorme!“
Notaram, então, que uma coisa estranha acontecia quando olhavam para o nenezinho: eles perdiam a sua compostura real e eram dominados por uma vontade incontrolável de rir. E quando riam, ficavam leves e começavam a flutuar. Era assim: quem visse o menino se transformava em anjo…
Os reis, em meio aos risos e vôos, olharam cada um para o outro e disseram: “Nossa busca chegou ao fim. Encontramos a alegria. Para se ter alegria é preciso voltar a ser criança…“ Ato contínuo tomaram suas coroas, capas de veludo, dinheiro, ouro, jóias – pesadas coisas de adulto – e as depuseram no chão, ao lado das vacas e dos burros… Partiram leves, ora andando, ora pulando, ora voando, mas sempre rindo.
“Vou mudar de vida“, disse Gaspar. “É horrível ter de estar estudando ciência o tempo todo. Vou me transformar em poeta…“
“Eu também vou mudar de vida“, disse Balt-hazar. “É horrível estar rezando o tempo todo. Vou ser palhaço. O riso é o início da oração“.
Ao que Mélek-hor acrescentou: “E eu descobri o prazer supremo, que vem sempre acompanhado de alegria: brincar. Vou ser um fabricante de brinquedos. Quem brinca volta a ser criança. E quem volta a ser criança está de volta ao Paraíso.“
E assim partiram, cada um por um caminho. E se você, nas suas andanças, se encontrar com um poeta, um palhaço ou um fabricante de brinquedos, pergunte se ele não tem notícias de uns três reis.

Conto de Rubem Alves

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OÁSIS


Conta uma popular lenda do Oriente, que um jovem chegou à beira de um oásis junto a um povoado e, aproximando-se de um velho, perguntou-lhe:

- Que tipo de pessoa vive nesse lugar ?

- Que tipo de pessoa vivia no lugar de onde você vem? – perguntou  o ancião.

- Oh, um grupo de egoístas e malvados – replicou o rapaz – Estou satisfeito de haver saído de lá.

- A mesma coisa você haverá de encontrar por aqui –Replicou o velho.

No mesmo dia, outro jovem se acercou do oásis para beber água e vendo o ancião perguntou-lhe:

- Que tipo de pessoa vive por aqui?

O velho respondeu com a mesma pergunta: – Que tipo de pessoa vive no lugar de onde você vem?

O rapaz respondeu: – Um magnífico grupo de pessoas, amigas, honestas, hospitaleiras. Fiquei muito triste por ter de deixá-las.

- O mesmo encontrará por aqui – respondeu o ancião.

Um homem que havia escutado as duas conversas perguntou ao velho:

- Como é possível dar respostas tão diferentes à mesma pergunta?

Ao que o velho respondeu:

- Cada um carrega no seu coração o meio e os sentimentos que vive. Aquele que nada encontrou de bom nos lugares por onde passou, não poderá encontrar outra coisa por aqui. Aquele que encontrou amigos ali, também os encontrará aqui, porque, na verdade, a nossa atitude mental é a única coisa na nossa vida sobre a qual podemos manter controle absoluto.

 

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O RIO DA VIDA


Era uma vez um riacho de águas cristalinas, muito bonito, que serpenteava entre as montanhas.
Em certo ponto de seu percurso, notou que a sua frente havia um pântano imundo, por onde deveria passar. Olhou, então, para Deus e protestou:
- Senhor, que castigo! Eu sou um riacho tão límpido, tão formoso e o Senhor me obriga a atravessar um pântano sujo como esse!
Deus respondeu:
- Isso depende da sua maneira de encarar o pântano. Se ficar com medo, você vai diminuir o ritmo de seu curso, dará voltas e, inevitavelmente, acabará misturando suas águas com as do pântano, o que o tornará igual a ele. Mas, se você o enfrentar com velocidade, com força, com decisão, suas águas se espalharão sobre ele, a umidade as transformará em gotas que formarão nuvens, e o vento levará essas nuvens em direção ao oceano. Aí você se transformará em mar…

 

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TER E SER


Um pai, em uma situação muito confortável de vida, resolveu dar uma lição a seu filho ensinando o que é ser pobre. Ficaria hospedado por alguns dias na casa de uma família de camponeses. O menino passou três dias e três noites vivendo no campo.
No carro, voltando para a cidade, o pai lhe perguntou: “Como foi sua experiência?” “Boa.” respondeu o filho, com o olhar perdido à distância.
“E o que você aprendeu?”, insistiu o pai.
O filho respondeu:
“Que nós temos um cachorro e eles têm quatro. Que nós temos uma piscina com água tratada, que chega até metade do nosso quintal. Eles têm um rio sem fim, de água cristalina, onde têm peixinhos e outras belezas. Que importamos lustres do Oriente para iluminar nosso jardim , enquanto eles têm as estrelas e a lua para iluminá-los. Nosso quintal chega até o muro.
O deles chega até o horizonte. Compramos nossa comida e esquentamos em microondas, eles cozinham em fogão à lenha. Ouvimos CD’s, Mp3, eles ouvem a sinfonia de pássaros, sapos, grilos, tudo isso às vezes acompanhado pelo sonoro canto de um vizinho trabalhando sua terra. Para nos protegermos vivemos rodeados por um muro, com alarmes… Eles vivem com suas portas abertas, protegidos pela amizade de seus vizinhos. Vivemos conectados ao celular, ao computador, sempre plugados, neuroticamente atualizados. Eles estão “conectados” à vida, ao céu, ao sol, à água, ao campo, animais, às suas sombras, à sua família.”

O pai ficou impressionado com a profundidade de seu filho e então o filho terminou: “Obrigado, pai, por ter me ensinado o quanto somos pobres! “
Nós temos olhos para enxergar, ouvidos para escutar, mas falta a humildade em nossa mente e coração para poder sentir.

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